echo "$idmenu";
 

Porto Alegre, Quarta-feira, 08 de setembro de 2010

23:51
Letras < Novela

Saturno Blues


Mininovela de Jorge Ritter
Ilustrações de Mateus Grimm

– Henry, pelo amor de Deus, pare com essa merda! A viagem no tempo é um cul-de-sac!
– Blá! O Tempo nada mais é que uma sequência de Momentos Presentes colocados lado a lado no Grande Tabuleiro da Vida, bem sabes disso.
Nonsense! Se acelerarmos demais a nossa Vontade, viraremos Plasma Liquefeito!
Henry olhou para o chão, precisava ir com cuidado, não podia assustar o amigo
nesse momento periclitante. A verdade era uma só: tinha medo de viajar sozinho.
– Sidarta, queres passar o resto da tua vida neste anel fodido de Saturno, desinfetando Lagartos vindos do hiperespaço? Não creio. Veja bem, se conseguirmos colocar em um mesmo nível de Energia nossas ondas Quântico-Neurais, estabelecendo um Momento paralelo à Luz, e no momento certo dermos um salto, ganharemos o Impulso necessário para vermos a história da humanidade como o Grande Tabuleiro, bastando somente...
– Derreter? E o Projeto Electra, você esqueceu?
Era verdade, haviam derretido os dois, Bóris e Robin, deixando apenas uma
poça de gordura animal no chão, meras notas de rodapé da Era Romântica das pesquisas sobre o Tempo e a Luz. Henry não sabia o que dizer, buscou inspiração no teto do Laboratório: estava manchado de umidade, verde de um lado, preto nos cantos. Assoou o nariz e retomou a palavra fitando a tela do Monitor, como a olhar Sidarta nos olhos.
– Correto, mas sei por que isto ocorreu: entrei na Biblioteca Círius e descobri que os dois estavam tomando Anti-Depressivos Primários de cunho Prozáquico como dropes de hortelã, seus Sistemas Beta-Motores estavam completamente estagnados! Nós não, estamos deprimidos há décadas! Basta acelerarmos e PFÍU!

– Henry, eu preciso pensar um pouco... o seu plano parece saído de um seriado de ficção de terceira categoria, daqueles que a Laika fazia em LLXV...
– Eu sei, eu sei... mas quem sabe já estamos engajados nesta Viagem e nem percebemos?
Sidarta baixou a cabeça pensativo, brincou com o zíper do seu macacão
emborrachado. O amigo estava certo, não aguentava mais escovar lagartos centenários cheios de manias, mas por outro lado essa era sua profissão, aliás, desde seu bisavô que sua família desempenhava a honrada profissão de Lava-Lagartos interestelares.
– Bom, depois nos falamos no Tobogã, está chegando uma Nave de Raqs
jogadores de rúgbi.
– Certo, vou falar com a Sabs e a Lips, elas têm de ir junto, afinal precisamos de mulheres nesta história, digo viagem! 
Sidarta fez OK com o polegar e sua imagem sumiu da tela, dando lugar à velha paisagem de uma floresta de altos pinheiros e uma montanha nevada ao fundo.
Henry abriu a imagem da Escotilha, fazendo surgir o anel H3B com sua cor amarelo-rosada. Apesar de várias tentativas desesperadas, não conseguira ascender de Anel e provavelmente estaria fadado a passar o resto de seus dias neste laboratório de segunda categoria fazendo experimentos com Ventosas Sexuais. Não que o trabalho a princípio não fosse realmente excitante, mas estava cansado de tanta sucção, e agora a nova moda de Antenas era um tanto desconfortável, para dizer o mínimo, mas para que servem os Estagiários? Olhou o relógio, faltavam cinco minutos para terminar o expediente, restava apenas mais uma reunião no Tubo do seu chefe, um Raqtiliano de 450 anos, conhecido como Beli. Tempo suficiente para seguir o rascunho do seu projeto: sim, Sidarta certamente iria junto, convenceriam Sabs e Lips, então tomariam todos juntos uma cartela de Ácidos Lisérgico-Pragmáticos de última geração, aplicariam Antenas e Ventosas na potência máxima e o Tempo transformar-se-ia no Grande Espelho D’Água, descrito minuciosamente pelo Experimento Electra.
O que Henry não sabia era como dar o Passo ao Lado e deixar o Contêiner que era seu corpo e caminhar até o ponto no Tempo desejado. Não queria fritar ou desaparecer do mapa como seus antecessores, mas como sabê-lo? Será que não os encontraria presos ao Momento Presente? Então perguntaria pateticamente: – “Bóris, Robin, são vocês? Vocês nos dariam uma dica de como seguir adiante?” – e o que ouviria seriam risadas histéricas? Antes que Henry terminasse de desenhar o ponto de interrogação em seu Lap-Palm, foi sugado pelo Dynamic junto à porta.


O Pesquisador apenas apertou o botão vermelho à esquerda e logo reintegrou-se no Tubo de Beli. Mais dois passos e estava frente a frente com o Lagarto, este aparentemente prestes a explodir. 
– HENRY! SUA ANTENA BIPOLAR ME DEU UM CHOQUE DE 100 GYGA BYTES NO RABO! TÔ SENTADO EM UMA BÓIA JOHNSON HÁ DUAS HORAS!
Henry conteve um sorriso. Conhecia Beli há dez anos, tinham uma relação boa, quer dizer, para uma relação de trabalho entre um Lagarto e um Humanóide. Beli era gordo e viscoso, não tão gordo e viscoso como muitos, mas o suficiente para deixar um grande rastro no chão quando arrastava a barriga e um forte cheiro de minhoca esmagada no ar. Usava o uniforme militar de oficial do Exército Raq, um fraldão plástico verde. Os olhos giravam, a fala sibilante, a língua inquieta. Era uma promessa para o futuro, um Lagarto de sangue quente, digamos assim.

– Mas Grande Beli, não era essa a sua intenção?
– MINHA INTENÇÃO? ONDE ANDA SUA CABEÇA?
– Grande Beli, realmente ando desatento, como Grande Lagarto Interestelar que és, sabes como nós Humanóides somos macacos distraídos e inconsequentes. Peço apenas mais uma chance...
– UMA CHANCE?
O Lagarto sacou a pistola e atirou na cabeça do Pesquisador. Este teve tempo
apenas de fechar os olhos, então sentiu o impacto do raio eletrônico e logo um enjôo intenso: era um raio de Mal Estar, provavelmente de cinco segundos. A pessoa sentia o estômago revirar, uma tontura absurda, dor nas juntas, a cabeça latejando. Henry seguiu contando um e dois e três e quatro e cinco. Em seguida abriu os olhos e lá estava Beli, sentado de lado na Johnson, o olhar cuspindo fogo. De todos Raqtilianos deste anel, ele pegara logo o mais depravado sexualmente como chefe! Isso sim era sorte, ainda mais em um Centro de Pesquisa tão ímpar como o seu, de importância tão vital para as Longas Viagens. A verdade era uma só: Henry tinha esgotado a imaginação, sua famosa Ventosa Sioux e a inesquecível Antena Eiffel, lançadas para o Natal de XLI-Y, tinham causado um impacto enorme, a ponto de ele ter sido promovido ao comando do Centro de Pesquisas Onanísticas de H3B. Mas já se iam quatro anos sem um acessório que arrepiasse realmente qualquer um, quem dirá um lagarto experiente como Beli. Sua sorte era que os Raqtilianos tinham uma memória curta, de no máximo duas horas, portanto era possível que o chefe já estivesse esquecendo como e porque tinha queimado o rabo, e logo pediria uma Antena nova e mais potente. Dito e feito.
– HENRY! O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO NA MINHA FRENTE?
– Grande Beli, peço desculpas, mas creio que fui chamado para lhe explicar as benesses da nova Antena Bipolar Arco do Triunfo.
– Hmm... está bem, vou testá-la hoje à tarde... segunda-feira me lembre sobre isso. DISPENSADO MACACO!
O Pesquisador afastou-se com reverência, pulou para o Dynamic e um segundo depois já estava de volta ao Laboratório com um sorriso divertido no rosto.


Fazia algum tempo que Henry não dava mais importância para as autoridades Raqtilianas, perdera o medo dos Raios de Mal Estar, estava anestesiado moral e psiquicamente, não temia mais nada, apenas a possibilidade de passar o resto dos seus dias preso a um anel de subúrbio como H3B, comendo pastas de dentes e vivendo em Tubos, com Lagartos imbecis nos Monitores a controlar sua vida. Sua sorte era seu trabalho, que lhe permitia pesquisar na BeeNet a qualquer momento, sobre qualquer assunto, desde que suas Ventosas mantivessem os Raqs calmos. Talvez esse fosse o maior problema e a maior virtude, do Império Raq: a determinação por parte do Grande Conselho de que as Lagartas ficassem sempre em Terra, cuidando dos Ovos para que o Exército seguisse sua permanente Guerra de Expansão. Na verdade os Raqtilianos eram seres limitados, um QI de gato, mas sua obstinação aliada à sua falta de medo, sentimento que desconheciam, os levaram a dominar o Sistema Solar e adjacências, sendo bastante provável que chegassem ao domínio total da Via Láctea em menos de três mil anos. A Grande Guerra de 2009, em que as primeiras naves vindas de Plutão, seu planeta de origem, desceram na Terra, fora arrasadora. Em pouco tempo os Lagartos haviam dominado o planeta e escravizado a Humanidade. Henry desconfiava que seus antepassados vinham provavelmente do Hemisfério Norte terráqueo, o que explicaria sua pele rosada e cabelo fogo. Já fazia algum tempo que parara de pensar sobre o porque das coisas, tinha 38 anos e fora um fim de semana em Mercúrio, onde apresentara sua tese de doutorado, “A Ventosa É a Saída?”, nunca havia saído de H3B, aliás, toda sua família, pelo menos há cinco gerações. Os Lagartos usavam Saturno como base para Cassinos, Resorts e afins, sobrando para os Primatas Humanóides, alguns seres Híbridos, que diga-se de passagem, eram uma enorme dor de cabeça para o Império, e burocratas Raqtilianos como Beli, os 300 Anéis em torno do planeta, dos quais H3B era o Anel número 264.

No mais, a vida em H3B era de uma repetição alucinante. O mesmo não se podia dizer da noite, que durava uma hora e meia e fazia com que os Lagartos entrassem num estado letárgico, os olhos fechados e as barrigas encostadas no chão para manter o calor. Assim que o Sol deixava de aquecer o Anel, os Raqs estacionavam seus corpanzis onde estivessem enquanto os Humanóides e afins saíam correndo para os bares e restaurantes clandestinos. Uma hora e meia de liberdade por dia era algo extraordinariamente curto, alguns aproveitavam ao máximo, Henry não, já havia perdido a ilusão de que estes momentos efêmeros o tirariam do fosso existencial que se encontrava. Então ia sempre ao mesmo bar, o Tobogã, consumia entre cinco e dez Dentifrícios de Cerveja ou Vinho, ria um pouco, gritava com os amigos, quase sempre Sidarta, Sabs e Lips, com sorte apertava os seios de uma ou outra, e em seguida soava o alarme para que todos voltassem para seus Tubos. Em um instante, ele estava pronto para dar o primeiro bom dia para Beli. Para compensar a falta de sono, havia desenvolvido uma técnica de dormir sentado com a cabeça apoiada no microscópio, o que a princípio era incômodo, mas logo Henry passou a dormir três horas seguidas, apenas com o senão de andar sempre com uma marca de óculos em torno dos olhos. As pessoas encontravam maneiras diferentes para dormir, afinal como deixar passar a hora e meia em que tudo era permitido?
Seguiu desligando os aparelhos, fechou a escotilha. Os anéis brilhavam com a luz vermelha do pôr do sol, logo o Tobogã estaria fervendo.


O bar estava lotado e no salão já tinha gente a pular sem roupa. Henry tomou o lugar de sempre no balcão. Pediu uma cerveja, apertou o tubinho e engoliu metade do conteúdo, a sensação de relaxamento preenchendo aos poucos o Vazio. Logo já batia um papo com o barman, conhecido como Bomba, um Humanóide com pés de Raq, amigo de muitos anos. Como todo Ser Híbrido, Bomba era um sujeito agitado, nunca dormia: barman à noite, bombeiro durante o dia.
– Henry Ventosa, como vão as coisas?
– Tudo bem, Bomba, fora um choque no rabo do Beli, a semana foi boa.
– He, he... o Beli merece, aliás, tô com um Ácido Lexotânico absurdo de bom.
– Sério? Quanto?
– Dois raqs e cinquenta.
Henry espremeu o resto do Dentifrício, não tinha certeza se estava com vontade de deixar o Contêiner tão cedo. A última vez que tomara um Ácido forte as Estrelas tinham caído como raios sobre sua Vontade. Terminara a noite em um Tubotel de terceira com um Ser Híbrido de três seios. No outro dia mal conseguira deixar o Microscópio, a cabeça pesando duas toneladas.
– Não, valeu Bomba. Hoje preciso pensar um pouco.
– Eu sei, sobre uma visita à Velha Terra e suas praias...
– Shh! Quem papo é esse? Quem te contou?!
– O Sidarta, passou há pouco por aqui, tá bêbado como um gambá, parece que se desentendeu com uns Raqs de um time de rúgbi, aí deram um Raio de Mal Estar de meia hora nele, agora tá bem louco, he he...
– Meia hora! Que absurdo, vou falar com Beli amanhã, isso não pode ficar assim!
– Bom, agora eu também quero ir.
– Aonde?
– Ver o Grande Tabuleiro!
Bomba deixou Henry com um Dentifrício duplo de uísque, este sem saber o que
dizer. Um Ser Híbrido na expedição? Isso não estava na Equação do Projeto Electra, afinal o resquício de energia Raq que estava nele podia atrapalhar tudo! Neste instante Sidarta voltava do banheiro abraçado a Sabs e Lips, uma baba escorrendo pelo canto da boca do amigo.
– HENRY VENTOSA! IÁÁÁ!
– Garotas, ancorem ele ao meu lado.
O salão estava tomado pela Loucura, a maioria com os macacões arriados na
cintura, o som alto tocando um velho rock New Wave terráqueo. O chão começara a balançar como um barco em um mar revolto, daí o nome do bar, pois eventualmente todos caíam ou voavam de seus lugares em uma espécie de catarse terapêutica autodestrutiva. Henry se amarrava no balcão, não tinha mais paciência para este tipo de diversão. As gêmeas rapidamente prenderam os velcros de Sidarta no banco, este acompanhando o embalo do Ambiente, passou a mão no Dentifrício de Henry e apertou tudo até o fim, depois limpou a baba com o punho e gritou:

– EU NUNCA MAIS ESFREGO AS COSTAS DESSES LAGARTOS FILHOS-DA-PUTA!
Sabs e Lips aproveitando o movimento do bar, prenderam seus velcros em torno
de Henry, sentando uma em cada perna do Pesquisador. Eram garotas de 18 anos, os seios duros de Silicone, a Expressão permanente de alegria e Bem-Estar desenvolvida em laboratório. Henry conhecera as duas em uma leitura de poesias Românticas. Suas Aparências eram apenas isso, por dentro batiam dois corações sangrando de dor. Refeito do devaneio, Henry olhou para o amigo ao lado, balançando com um sorriso débil, o olhar insano.
– Sid, calma, você teve apenas um dia ruim.
– DIA RUIM? HENRY VENTOSA ME DIZ QUE TIVE UM DIA RUIM! CHUPA AQUI, MANO! ALIÁS, QUANDO SAI A EXPEDIÇÃO?
Henry olhou em volta, ninguém ouvira, o ritual diário de vôos pelo salão estava em pleno andamento, com as pessoas pulando nuas ao som Punk do momento, “God Save the Queen”. Restavam quinze minutos de paz até o sol nascer e os Lagartos tomarem suas posições de Comando e Controle.
– Shh! Sidarta me ouve: falta muito pouco para viajarmos, agora não ajuda em nada você seguir gritando para que todos ouçam sobre o nosso Projeto!
– IÁÁÁ!! CHUPA A...
Antes que Sidarta terminasse a frase, Henry soltou o velcro e no mesmo movimento empurrando as duas garotas para o lado, lançou um direto no queixo do amigo, o punho girando, um golpe seco, justo. Este balançou a cabeça para trás, depois caiu com o corpo inerte para frente, os velcros mantendo a postura de um bêbado arriado no balcão. No balanço seguinte do bar, Henry estava de volta no seu lugar, Sabs e Lips paralisadas dois bancos à direita. Bomba veio caminhando devagar com um pano limpando o balcão, ao chegar perto de Henry que examinava o dedo indicador dolorido, inclinou-se para lhe falar ao ouvido.
– Henry, você pode confiar em mim.
– Em um Ser Híbrido? Faça-me um favor e deixe Sidarta dormindo na Casa de Máquinas, ele está a ponto de perder a cabeça! Quanto a você, consiga uma cartela de Ácidos Lisérgico-Pragmáticos de grau 10 pelo menos para amanhã de manhã.
Bomba seguiu seu trabalho, então no canto dos fundos escreveu o recado em seu
Palm: sua memória Raq era de três horas e um pouco, não mais que isso. Henry soltou o macacão do balcão, olhou no relógio, faltavam cinco minutos para o amanhecer. Ao passar pelas garotas apenas fez sinal de que ligaria no dia seguinte e que deixassem Sidarta aos cuidados de Bomba. Digitou calmamente o sobrenome usado como senha no Dynamic:
C-H-I-N-A-S-K-I, e logo sentiu o formigamento do Contêiner a desintegrar-se.
Apareceu no Tubo com o sol subindo, na tela do Monitor ondas quebravam em uma praia paradisíaca. Aproveitou para trocar de macacão e tomar um banho de Vento Pressurizado. Não havia tempo a perder, o Momento havia chegado.


O dia amanheceu nublado em H3B e Henry não havia dormido um segundo. Colocou o uniforme para grandes Eventos, um macacão preto com listras laranjas. Sentou-se na frente do Monitor e logo discou para o Tubo das garotas. Lips atendeu sonolenta com uma remela no olho esquerdo e ainda de camisola.
– Henry... o que foi?
– Lips, não há tempo para mais nada. Estamos viajando hoje, aliás, hoje de manhã!
– O quê?
– Acorde a Sabs, coloquem seus melhores macacões e venham já para o meu Laboratório, câmbio desligo.
Henry procurou na agenda os números de Bomba, ele podia estar no mínimo em seis ou sete lugares, o mais provável no Tubo de Sandy, um Ser Híbrido realmente sexy, três seios e duas pequenas caudas.
– Quem é você? – perguntou Sandy ainda nua.
– Henry Chinaski, chefe do Departamento de...
– Ah, Henry Ventosa! Parabéns, achei a Arco do Triunfo uma maravilha... quer falar com o Bomba? Olha ele tá ocupado agora.
Em seguida Sandy foi empurrada para o lado e apareceu o rosto hindu de Bomba colado ao Monitor: não havia jeito de fazê-lo entender que não era preciso encostar o nariz na tela.
– HENRY VENTOSA?
– Bomba, shh... a hora chegou. Pega os Ácidos e vai pro meu Laboratório, nos encontramos lá.
Faltava Sidarta. Henry encontrou-o já pronto para escovar a primeira leva de Lagartos que vinham entregar a correspondência de H3B.
– Desculpe, Henry... eu misturei as pastas de uísque com vinho e depois de cerveja e deu no que deu e...
– Shhh... larga tudo aí e vamos embora. Nos vemos no Laboratório no Instante seguinte.
Henry olhou pela Escotilha, será que sentiria saudades? Difícil responder. Caminhou calmamente até o Dynamic e logo reintegrava-se no Laboratório.
Estavam todos lá, um silêncio nervoso dominava o ambiente.
– Amigos, não há tempo a perder. Logo estaremos sendo procurados. Sentem nas Gyroflex que arrumei em círculo. Estão vendo os eletrodos? Coloquem em suas têmporas, então se conectem à pessoa ao lado, exato... depois posicionem as Ventosas e Antenas nos seus respectivos lugares... isso. Agora Bomba, por favor, vá passando os Ácidos.
Henry tomou o seu lugar também. Havia uma eletricidade estática no ar, estavam
fazendo História. Olhou cada um nos olhos como a agradecer, então conectou seu eletrodo, conferiu se todos haviam tomado sua dose Lisérgica-Pragmática e deu partida nos Acessórios. O que se seguiu é de difícil descrição: a princípio uma gritaria de prazer, então lamentos incompreensíveis entremeados por xingamentos e finalmente uma grande explosão de luzes amarelas e vermelhas, como raios. Passados alguns instantes que pareceram uma Eternidade, sobreveio um branco total, como um gigantesco flash, e então o Grande Tabuleiro.
Henry foi o primeiro a retomar a palavra, estavam todos paralisados de medo, ainda sentados em círculo, cada um como uma peça de xadrez no Tabuleiro, casas brancas e casas pretas até o Infinito.

– CONSEGUIMOS!
Um a um se levantaram e se abraçaram, logo uma festa acontecia. Ficaram a
brincar por um tempo aparentemente interminável, só sendo interrompidos aqui e ali por um som estranho, parecido com o bater de teclas que vinha de longe, mais precisamente junto à casa do Rei. O Pesquisador pediu silêncio com os dedos e saiu a caminhar em direção ao pléc, pléc. Estranhamente, só conseguiam se movimentar como cavalos do jogo de xadrez, três para frente e um para o lado, mas logo se acostumaram. Ao chegar na quarta casa do Rei, viram que uma luz tênue brilhava ao fundo, de onde o pléc, pléc só era interrompido por um grito estranho, algo como “purple rain, purple rain”. Henry ergueu os braços para cima, e em um tom bíblico falou com fervor:  
– Amigos, é preciso Fé. O Momento exige que seja dado o Passo ao Lado, para que possamos deixar o Momento Presente e viajar para o Desconhecido!
Sem dar tempo para qualquer reação, o Pesquisador deu um passo à esquerda e
desapareceu. Após uma intensa troca de olhares assustados, todos o seguiram.


O grupo parou às costas de um homem que digitava curvado em um computador, o quarto abafado e quente do aquecedor ligado no canto. Ficaram estáticos por minutos sem saber o que fazer, não havia dúvida que tinham chegado ao seu destino final. Finalmente Bomba deu um passo e cutucou o Escritor, de camisa de flanela e calça de quimono. Este ao perceber o toque e olhar para trás deu um grito histérico e um pulo, batendo com a cabeça na tela e vindo a cair no sofá ao lado. O queixo tremia, o rosto pálido. Henry tomou a palavra:
– Olá!
– HÁÁÁ!
– Então você é o Hierofante que por tanto tempo ditou nossas vidas? Muito prazer, eu sou Henry.
– HENRY VENTOSA? BEM QUE ME DISSERAM PRA PARAR DE FUMAR ESSE CACETE DE MACONHA TRANSGÊNICA!
O silêncio voltou a reinar, por instantes só o que se ouvia era o chiar do vento frio na rua e o riso nervoso de Sidarta.
– Sim, sou Henry. É claro que aquele ali é o Sidarta, a Sabs e...
– CHEGA! VOCÊS SÃO UMA ALUCINAÇÃO BRABA!
– Alucinação ou não, estamos aqui. Qual seu nome?
– Jorge... MAS O QUE É ISSO? ALUCINAÇÃO OU NÃO? CHUPA AQUI, MANO! SABE O QUE MAIS? VOU DAR MAIS UM PEGA NESSE BASEADO!
O Escritor levantou seu corpo de viking com noventa quilos de cerveja e panifícios. Foi avançando para fora do quarto desenvolvendo uma sequência pífia de karatê, um chute à esquerda, dois socos pra cima, uma cotovelada no marco da porta. Ao chegar na sala, acendeu a ponta com as mãos trêmulas e tragou como um trompetista em um solo de jazz, as bochechas estourando de fumaça. Depois prendeu o nariz com os dedos e sacudiu a cabeça várias vezes gritando:
PURPLE RAIN, PURPLE RAIN!
Terminado o que parecia um transe, voltou-se para o quarto soltando uma nuvem
de fumaça.
– HÁÁÁ! VOCÊS SEGUEM AÍ, QUE HORROR!
– Calma, Jorginho.
– JORGINHO?
– Jorginho... – falou Lips com um sussurro, os bicos dos seios espetando a blusinha azul clara.
– Tudo bem, tu pode Lips... sabe eu pensei na Josi quando escrevi teu personagem. Aquilo sim era mulher. MAS O QUE É ISSO? EU TÔ CONVERSANDO COM UMA PERSONAGEM? QUAL É MESMO O NÚMERO DAQUELE DOUTOR?
Então com um movimento brusco o Escritor chutou o disjuntor do computador, apagou a luz e voltou correndo para sala, então virou-se de uma vez como a surpreender a própria sombra. Seguiam todos ali a acompanhá-lo com o olhar.

– Meu Deus! Vocês vieram pra ficar? Não querem um suco de uva?
Em seguida começou a rir histericamente, o corpo curvado, depois já deitado no chão, as mãos batendo com as palmas no assoalho de madeira. Passados alguns minutos, dirigiu-se a Henry:
– Henry, já era hora de vocês realmente tomarem corpo, haha...
Mais um acesso, agora deitado de bruços e pedalando com os pés também. Então resolveu sentar-se e tomou a palavra fingindo falar de forma solene:
– Então, seus cornos-filhos-duma-puta, o que vocês querem?
Bomba pigarreou e retrucou desajeitado, sibilando mais do que o costume:
– Jorge, a gente não sabe, é tu quem escreve, he he. Se tu disser que a gente tá voando, a gente tá voando...
– BLÁ! Seres híbridos... pois eu digo: “Então o grupo sentou-se em um círculo em torno do Escritor.”
Para seu espanto, um a um foram sentando à sua volta. Ele parecia divertir-se a valer a essa altura. Foi até o cinzeiro e fumou mais um pouco. Retomou a palavra, como a ditar um texto:
– “Em seguida reinou um silêncio respeitoso no grupo, todos a pensar como voltariam para suas respectivas histórias. Não tinham nada a fazer no apartamento do seu Criador. Sim, era hora de voltar para casa”.
Ele terminou a frase e fitou um a um nos olhos, ver que efeito havia conseguido. Bomba não se conteve.
– Olha, tudo bem que tu escreveu e tal, mas eu quero dar uma banda na cidade.
O grupo todo se agitou e um “eu também!” ecoou pela sala.
O Escritor respirou fundo, não sabia o que dizer. Alucinação ou não, pareciam decididos.
– Tudo bem, vamos dar essa banda – e já foi colocando o casaco de couro e abrindo
a porta: sentia-se como um professor de colégio levando a turma pela primeira vez ao zoológico. No elevador, não conseguiu tirar os olhos de Lips, que mulher, que seios, que maravilha. Esta percebendo o olhar, riu para Henry e o beijou de língua, o que pareceu divertir o pessoal até demais. Ao chegarem no térreo, o porteiro abriu a porta sorridente:
– Seu Jorge, saindo a essa hora?
– Eu sei, mas é que esses aqui... deixa assim, o importante é a gente ganhar domingo... boa noite.

The End



[Letras]  [Conto]  [Crônica]  [Poesia]  [Novela]