Última crônica
Valesca de Assis
Você está lendo meu último escrito literário: uma crônica. Daqui para a frente, apenas avisos de geladeira e receitas culinárias. Recados para os filhos levarem os casacos, pois vai esfriar, e para o marido não esquecer a pasta e os óculos. Receitas, só as de comidas baratas, com muitas fibras e pouquíssimo colesterol.
Acontece que fartei-me de buscar realização intelectual. O preço é despropositado.
Quando ainda sonhava voar, consumi os dedos escavando tempo entre as roupas por lavar e o feijão queimando. Cobri-me de rugas escrevendo à noite, quase sem luz, ao invés de guardar forças para cumprir o dia seguinte. Pálida, sempre comprei canetas no lugar de batons; seca, preferi os livros aos cremes. Fui à padaria mais vezes que o necessário, porque meus lápis tinham fome de papel-de-pão. E tantas vezes engordei, e tantas adoeci, compondo personagens. Gastei minha lâmpada à procura de um editor, um só que fosse.
Ninguém foi feliz ao meu lado.
É minha derradeira crônica, reafirmo. Não é a primeira vez que digo isso, eu sei. Mas juro: nesta fase da vida, o que mais quero é ser uma avozinha tranqüila, tecendo malhas ou jogando bola com as crianças.
Quero.
Quero, sem conseguir. Os livros ainda não lidos e todas as páginas por escrever me olham, ávidos. E me fazem sangrar.
Devolvo a bola ao menino.
E abro as asas.