Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) foi um importante botânico francês de renome mundial. Os diários de suas viagens, traduzidos para inúmeras línguas, tiveram grande número de leitores exatamente pela precisão com que descrevia aspectos culturais e sociais dos locais onde esteve. É por este motivo que suas anotações são de grande valor histórico, sendo raros os trabalhos de Etnografia, Geografia e História do país em que seu nome não é citado.
Saint-Hilaire esteve no Brasil em diversas oportunidades, duas delas passando pelo Rio Grande do Sul. As visitas que fez a Porto Alegre, tema do relato que transcrevemos nesta edição, datam de 1820 e 1821 (ano da última vez que veio ao Brasil). As inúmeras observações sobre a localidade ainda nascente é um dos poucos registros existentes sobre os costumes, a língua, a agricultura e a pecuária da região.
Porto Alegre era pouco mais do que uma vila na época. Mesmo assim o juízo que Saint-Hilaire fez dos seus habitantes e seu modo de vida o levou a vislumbrar a metrópole que ia se tornar. É a descrição dessa Porto Alegre florescente, no início do século passado, que publicamos a seguir.
Primeira visita: 1820
Segunda visita: 1821
Primeira visita: 1820
Porto Alegre, 21 de junho, 2 léguas - Entre a localidade onde passei a noite de ontem e Porto Alegre a região continua a ser um pouco
ondulada e mais povoada de casa, pequenas, porém bem conservadas e construídas sobre as eminências do terreno.
Junto a cada casa existe um grupo de frondosas laranjeiras, no momento pejadas de magníficos frutos, e nas vizinhanças vêem-se plantações de
mandioca, cercadas por valas profundas, e limitadas no lado interno por uma fileira de cactáceas. Para isso empregam duas espécies dessa
família, uma pertencente ao gênero Cereus e a outra ao gênero Oxalis.
Um pouco antes de Porto Alegre a estrada, que vinha se orientando de nordeste para sudoeste, faz um ângulo para o quadrante ocidental. Divisa-se
então a cidade e segue-se pelo alto de uma colina, que tem a forma de um istmo, na direção de um lago (Lagoa dos Patos), sobre o qual está
situada a cidade.
À esquerda da colina, aquém da cidade, existe uma vale largo e pouco profundo, coberto de pastos idênticos aos demais dos arredores desta
localidade.
À direita da colina, entre ela e o lago, estendem-se os terrenos baixos, semeados de casas de campo e de plantações de mandioca e cana-de-açúcar.
Em todo o Brasil os campos de culturas são sempre muito distanciados uns dos outros. Na região em apreço, entretanto, eles se tocam, como
nas mais povoadas regiões européias, e anunciam a proximidade de uma cidade.
{Do pouco que se disse a respeito da posição de Porto Alegre se depreende quão agradável ela é.} Já não estamos na zona tórrida com sítios majestosos
e desertos monótonos. Aqui lembramos o sul da Europa e tudo quanto ele tem de encantador.
Surpreendeu-me o movimento desta cidade, bem como o grande número de edifícios de dois andares e a grande quantidade de brancos aqui existentes.
Aqui vêem-se pouquíssimos mulatos. A população compõe-se de pretos escravos e de brancos, em número mais considerável, e constituídos de
homens grandes, belos, robustos, tendo a maior parte o rosto corado e os cabelos castanhos.
{Percebe-se logo que Porto Alegre é uma cidade muito nova. Todas as casas são novas e muitas ainda estão em construção. Mas, depois do Rio
de Janeiro não vi cidade tão suja, talvez mesmo mais suja que a metrópole.}
Porto Alegre, 24 de junho - Fui visitar o Conde de Figueira, em uma casa de campo onde passa as tardes e situada a cerca de ¾ de
légua da cidade.
O caminho que lá vai dar tem o nome de "caminho novo", porque foi aberto recentemente. É uma continuação da grande estrada de Porto Alegre, e,
como é muito plano torna-se mais cômodo para as carruagens do que aquele pelo qual cheguei. Saí ao norte da cidade, margeando primeiramente o
lago e depois o Rio Gravataí, afluente do dito lago. De um lado o caminho é guarnecido por uma linha de salgueiros e no outro existem casas de
campo e jardins cercados de sebes de uma mimosácea espinhosa.
Os terrenos planos e cultivados que vi, logo ao chegar a Porto Alegre, ficam apertados entre o caminho novo e a colina na extremidade da qual
se acha a cidade. Raros são os passeios tão encantadores como o do "caminho novo", o qual lembra tudo quanto existe de mais agradável na Europa.
Porto Alegre, 26 de junho - Jantei hoje na casa de campo do Conde, onde tive ocasião de ver duas vacas portadoras de atributos próprios
do sexo masculino. Os caracteres da cabeça são os do touro, a vulva menor e menos próxima do ânus que nas vacas comuns; as quatro tetas
são muito pequenas e por baixo trazem dois corpos grandes, ovóides, semelhantes a testículos de touro. Laçando uma dessas vacas, e {subjugada,
pude eu mesmo constatar a existência dos pseudo-testículos, apalpando-os e fazendo-os mover}. Disseram-me que esses animais mostravam maior inclinação
pelas vacas do que pelos touros.
Depois do dia 21 o minuano cessou. O tempo mostra-se perfeitamente calmo, o céu sem nuvens e o termômetro marca 74 graus Farenheit, ao
meio dia. Nesta época as chuvas caem ordinariamente com abundância; os mais antigos moradores da região dizem não terem memória de seca
semelhante à deste ano. Ela obriga os agricultores a adiarem a época dos plantios do trigo e dos laranjais, que se fazem normalmente na estação
atual para ter-se a colheita do trigo em dezembro.
Porto Alegre, 4 de julho - Durante vários dias o tempo manteve-se frio. Hoje está sombrio, como na França antes de nevar, tendo chovido
em grande parte do dia. Há geada quase todas as noites e o Conde mandou juntar muito gelo para fazer sorvete.
Acostumado, como já estou, às altas temperaturas da zona tórrida sofro muito com o frio. Ele tira-me toda espécie de atividade, privando-me
quase da faculdade de pensar.
{Esse frio repete-se todos os anos. Toda a gente se queixa dele, sem contudo procurar meios eficazes de defesa contra o inverno. Apenas cuidam
de agasalhar o corpo com vestes pesadas. Todos os habitantes de Porto Alegre usam em casa um espesso capote que, impedindo-lhes até os movimentos,
não os impede de tremer de frio...} Ninguém tem a idéia de aquecer os quartos, trazendo-os bem fechados e munidos de lareira.
Há aqui grande número de casas muito bonitas, bem construídas e bem mobiliadas, mas não há uma sequer que possua lareira ou chaminé. Os
quartos são altos, as portas e janelas fecham-se mal; estas têm freqüentemente as vidraças quebradas e há casas em que não se pode procurar um objeto
sem primeiro abrir os postigos das janelas e até mesmo as portas.
Essa falta de precaução contra o frio parece ter sido introduzida pelos portugueses, pois asseguram-me que em Lisboa as chaminés são objetos
de luxo.
Aqui as mulheres não se escondem, mas não há em Porto Alegre mais sociedade do que nas outras cidades do Brasil. Cada um vive em seu canto ou visita
seu vizinho, sem cerimônia, com roupas caseiras. Vai-se freqüentemente cavaquear nas lojas, mas não há nenhum clube. Jantei aqui em casa de
José Antônio de Azevedo. Aliás, apesar das numerosas cartas de recomendação que trouxe, as quais me valeram gentilezas, não recebi nenhum convite,
salvo do Conde e do Major João Pedro que são viajados e por isso mais traquejados. Em geral em todas as partes do Brasil, por onde tenho andado,
o estrangeiro é recebido na casa para onde vai recomendado mas não o apresentam aos demais.
Porto Alegre, 12 de julho - Um francês representante aqui de uma casa do Rio de Janeiro veio convidar-me para passar a tarde em uma
casa onde devia realizar-se um pequeno baile. Sabendo que essa casa era uma das mais recomendáveis de Porto Alegre não hesitei em aceitar
o convite.
Encontrei modos distintos em todas as pessoas da sociedade. As senhoras falam desembaraçadamente com os homens e estes cercam-nas de gentilezas,
sem contudo demonstrarem empenho ou ânsia de agradar, qualidade Quase que exclusiva do francês. Ainda não tinha visto no Brasil uma reunião
semelhante. No interior, como já repeti uma centena de vezes, as mulheres se escondem e não passam de primeiras escravas da casa; os homens não
têm a mínima idéia dos prazeres que se podem usufruir decentemente.
Porto Alegre, 21 de julho - Porto Alegre, capital da Capitania do Rio Grande do Sul, residência do General e do Ouvidor, fica situada
em agradável posição sobre uma pequena península formada por uma colina que se projeta de norte a sudoeste sobre a lagoa dos Patos. Este lago,
medindo 60 léguas de comprimento, tem, em suas origens, os nomes de Lagoa de Viamão ou Lagoa de Porto Alegre. Ele se estende na direção
norte-sul da costa, suas águas têm uma correnteza sensível e são geralmente doces em uma extensão de 30 léguas.
A cidade de Porto Alegre dispõe-se em anfiteatro sobre um dos lados da colina de que falei, voltado para noroeste. Ela se compõe de 3 longas
ruas principais que começam um pouco aquém da península, no continente, por assim dizer, estendendo-se em todo o comprimento paralelamente ao
lago, sendo atravessada por outras ruas muito mais curtas, traçadas sobre a encosta da colina. Várias dessas ruas transversais são calçadas,
outras somente em parte, porém todas muito mal pavimentadas. Na chamada Rua da Praia, que é a mais próxima do lago, existe diante de cada grupo
de casas um passeio constituído por largas pedras chatas em frente do qual são colocados, de distância em distância, marcos estreitos e altos.
As casas de Porto Alegre são cobertas de telhas, caiadas na frente, construídas em tijolo sobre alicerces de pedra; são bem conservadas.
A maior parte possui sacadas. São em geral maiores que as das outras cidades do interior do Brasil e um grande número delas possui um andar
além do térreo, e algumas mesmo têm dois.
{A Rua da Praia, que é a única comercial, é extremamente movimentada.} Nela se encontram numerosas pessoas a pé e a cavalo, marinheiros e muitos
negros carregando volumes diversos. É dotada de muitas lojas muito bem instaladas, de vendas bem sortidas e de oficinas de diversas profissões.
Quase na metade deste rua existe um grande cais dirigido para o lago, e ao qual se vai por uma ponte de madeira de cerca de cem passos de
comprimento, guarnecida de parapeito e mantida sobre pilares de alvenaria. As mercadorias que aí se descarregam são recebidas na extremidade dessa
ponte, sob um armazém de 23 passos de largura por 30 de comprimento, construído sobre 8 pilastras de pedra em que se apoiam outras de madeira.
A vista desse cais seria de lindo efeito para a cidade se não houvesse sido prejudicada pela construção de um edifício pesado e feio, à entrada
da ponte, de 40 passos de comprimento, destinado à alfândega.
Uma das três grandes ruas, chamada Rua da Igreja, estende-se sobre a crista da colina. É aí que ficam os três principais edifícios da cidade,
o Palácio, a Igreja Paroquial e o Palácio da Justiça. São construídos alinhados e voltados para noroeste. Na outra face da rua, em frente,
não existem edifícios, mas tão somente um muro de arrimo, a fim de que não seja prejudicada a linda vista daí descortinável. Abaixo desse muro,
sobre o declive da colina, existe uma praça, infelizmente muito irregular, cujo aterro é mantido por pedras soltas sobre o solo, formando tabuleiros
dispostos em losango.
Para além da Rua da Igreja, do Palácio, dos edifícios vizinhos dessa praça e das casas existentes mais abaixo avista-se o lago, que aparenta
ter a mesma largura do Loire em Orleans, circundado de ilhas baixas e coberto de vegetação pouco crescida.
Querendo gozar uma vista de aspecto diferente, mas também cheia de encantos, basta, logo que se chega ao alto da cidade, na rua da Igreja,
voltar-se para o lado oposto àquele que acabo de descrever. A parte do lago que banha a península do lado sudoeste forma uma grande enseada
de contorno semi-elíptico, de águas ordinariamente tranqüilas. Um vale, pouco largo e profundo, confina a parte longínqua da enseada.
O Palácio do Governador não passa de uma casa comum, de um andar e nove sacadas na frente. Mal dividido internamente, não possui uma só
peça onde se possa reunir uma sociedade numerosa como a de Porto Alegre.
O Palácio da Justiça é muito mais mesquinho ainda, térreo. A igreja
paroquial, cujo acesso se faz por uma escada, tem duas torres desiguais;
é clara, bem ornamentada e tem dois altares além dos que acompanham
a capela-mor. Entretanto é muito pequena, pois, segundo medi, conta
apenas 40 passos da capela-mor à porta.
Após minha chegada já contei cerca de 20 a 30 embarcações no porto
e, segundo me informaram, é freqüente esse número se elevar a 50. O
porto dá calado para sumacas, brigues e galeras de três mastros. {Demorando-se
sobre a margem de um lago que se estende até o mar, podendo-se ao mesmo
tempo comunicar-se com o interior por meio de vários rios navegáveis,
cujas embocaduras ficam diante de seu porto, Porto Alegre está fadada
a se tornar rica e florescente em um futuro muito próximo.} Esta cidade,
fundada há 50 anos, mais ou menos, conta já com uma população de 10
a 12 mil almas e alguém aí residente há 17 anos me informa que sua população
aumentou nesse lapso de tempo em mais de dois terços. Pode ser considerada
como principal empório da Capitania e mormente da zona nordeste do Estado.
O rápido aumento da população fez com que os terrenos se tornassem
mais valorizados aqui que nas cidades do interior. Poucas casas possuem
jardim e muitas não têm nem mesmo pátio, redundando isso no grave inconveniente
de serem atiradas à rua todas as imundícies, tornando-as de uma extrema
sujeira. As encruzilhadas, os terrenos baldios e principalmente as margens
do lago são entulhadas de lixo. Apesar de o lago ser o único manancial
de água potável, utilizado pela população, consentem que nele se faça
o despejo das residências.
É na Rua da Praia, próximo ao cais, que fica o mercado. Nele vendem-se
laranjas, amendoim, carne seca, molhos de lenha e de hortaliças, principalmente
de couve. Como no Rio de Janeiro os vendedores são negros. Muitos comerciam
acocorados junto à mercadoria à venda, outros possuem barracas, dispostas
desordenadamente no pátio do mercado. Vêem-se aqui também trapeiros
pelas ruas. Atualmente vendem muito o fruto da araucária, a que chamam
pinhão, nome semelhante ao das sementes de pinheiro da Europa. Usam-no
cozido ou ligeiramente assado ao chá, ou entre as refeições, sendo freqüente
obsequiar com ele os amigos.
Porto Alegre, 27 de julho - Ainda hoje não partimos, como era
esperado, porque choveu durante todo o dia. O tempo esgota-se, nada
faço e esta viagem se prolonga mais do que eu esperava.
Segunda visita: 1821
Sobre o Jacuí, a 3 léguas de Porto Alegre, 15 de maio. - Estando
a noite de admirável luar navegamos durante uma parte dela. Próximo
ao sítio onde paramos passamos pela Cachoeira de D. Rita, a última que
se encontra rio abaixo. À nossa direita deixamos o Riacho de Jacinto
Roque. Em seguida defrontamos uma aldeia, situada à margem direita do
rio, e que tem o nome de Freguezia Nova. Um pouco abaixo dessa aldeia
existem várias xarqueadas.
É próximo à Freguezia Nova que o Rio Taquari, muito volumoso e vindo
da Coxilha-Grande, lança as suas águas no Jacuí, tornando-se este, então,
muito mais largo, mas sempre bordado de matas semelhantes às que ontem
descrevi. Abaixo da Freguezia Nova vimos uma ilha desabitada de cerca
de uma légua de comprimento.
Estávamos já a alguma distância da Freguezia Nova quando me levantei
e fui agradavelmente surpreendido indo à coberta, ao ver a largura que
o Jacuí tomara depois dessa aldeia. É agora um belo rio, talvez tão
largo quanto o Loire diante de Órleans, tendo o curso menos rápido.
Cruzamos com vários barcos, muito bonitos, em demanda de Rio Pardo.
Tais são as embarcações de que se servem aqueles que têm pressa em ir
de Porto Alegre a essa cidade. São feitas de tábuas, porém, são estreitas
e alongadas como as pirogas; ordinariamente levam pintura de cor verde
e são cobertas por um baldaquino igualmente pintado de verde. Chamam-se
canoas ligeiras para distingui-las dos barcos de transporte, aos quais
chamam canoas grandes.
Mais ou menos a seis léguas de Porto Alegre começa-se a ver um grande
número de casas às margens do rio. Já avistamos as luzes de Porto Alegre;
ali celebram, hoje, uma festa, provavelmente para o juramento da Constituição,
e ouvimos o ruído de tambores. Estamos em frente à cidade, mas, devido
ao vento contrário, o patrão julgou prudente lançar a âncora. São nove
horas; vemos a iluminação, ouvimos o som dos instrumentos e os gritos
de alegria. A noite está magnífica e permaneço muito tempo sobre a coberta
do barco, a admirar-lhe as belezas.
Porto Alegre, 13 de junho. - Desembarquei em Porto Alegre a
16 de maio.
O meu primeiro passo foi apresentar-me em casa do Sargento-mor, João
Pedro da Silva Ferreira, o que me recebeu gentilmente, conduzindo-me
a uma pequena casa vizinha da sua, que alugara para mim, e convidou-me
a fazer refeições em sua casa durante todo o tempo que estiver aqui.
Aceitei esse convite; diariamente passo várias horas com o sargento-mor
e não paro de receber gentilezas de sua parte e de sua mulher, D. Gertrudes.
O Sr. Pedro nasceu em Portugal; estudou matemáticas e um pouco de francês
e é possuidor de espírito e sensatez. Nossas conversas versam sobre
os acontecimentos desenrolados em Portugal e no Brasil, sobre as operações
das Cortes e sobre as conseqüências da revolução, e elas têm para mim
tanto maior interesse quanto noto que o Sr. João Pedro não tem prevenção
alguma contra a América. Além disso ele é inimigo do despotismo e da
anarquia, conhecendo os homens em geral e particularmente os deste país.
Pedras Brancas, 3 léguas, 18 de junho. - Relatei, no ano passado,
as razões que me autorizavam a considerar as águas que se estendem de
Porto Alegre a Itapuã como sendo a continuação do Guaíba, mas, a vista
percebida do alto dessas colinas fez-me mudar inteiramente de opinião.
Com efeito, daí se vê, evidentemente, que os rios Caí, Sinos e Gravataí
não se lançam no Guaíba, mas reúnem-se a este último em um reservatório
comum, e esse reservatório, infinitamente mais largo que o Guaíba, não
tem outra continuação além da dos quatro outros rios, parecendo mesmo
prolongá-los mais que o próprio Guaíba, visto estender-se na mesma direção
daqueles, enquanto o Guaíba aflui lateralmente. Os donos dos iates que
navegam entre Rio Grande e Porto Alegre não consideram essas águas como
continuação do Guaíba e distinguem perfeitamente o ponto onde termina
esse rio e dão-lhe impropriamente o nome de Barra do Rio Pardo, chamando
Rio Porto Alegre ao curso de água de que tratamos. Como disse, já, algumas
pessoas dão-lhe o nome de Lagoa de Viamão ou de Porto Alegre; mas, em
geral, quando os porto-alegrenses a ela se referem, dão apenas o nome
de rio. De tudo isso resulta dever-se indicar-se o Guaíba como terminando
em frente a Porto Alegre.
Ancorado junto ao Morro do Coco, margem esquerda do Rio Porto Alegre,
20 de junho. - O tempo esteve soberbo, mas a calmaria forçou-nos
a não arredar pé. O dono do iate mandou cortar lenha para vender em
Rio Grande. As árvores que seus empregados preferiram foram uma mirtácea
chamada cambuí e a Mirsinácea denominada capororoca de folha larga,
cujos lenhos queimam bem, mesmo estando verdes, provavelmente pro conter
sucos resinosos.
O patrão e seus marinheiros são de uma distinção rara em gente dessa
classe. O primeiro é natural de Portugal, tendo vindo muito jovem para
o Brasil; enriqueceu-se como acontece a quase todos os europeus, no
meio de homens que temem o trabalho, não pensam no futuro e não tem
método nem espírito de economia.
Referi-me, no ano passado, ao edifício da Alfândega, de muito mau gosto,
construído na Rua da Praia, em frente ao cais, em Porto Alegre. Esse
foi demolido, tendo sido iniciado o levantamento de outro com melhor
projeto. Entretanto insisto em acreditar que seria melhor, para embelezamento
da cidade, não encobrir o cais e formar diante dele uma espécie de praça
onde continuassem a realizar a feira. Logo que o Conde Figueira partiu
interromperam-se os trabalhos da praça existente abaixo da Igreja e
do Palácio. As enxurradas já rasgaram as ravinas e a obra será em breve
totalmente perdida, se continuar esquecida.
Disse que haviam começado um cais destinado a um arsenal, de fronte
da Igreja das Dores. Também iniciado sob o governo do Conde de Figueira
foi interrompido após sua partida. Aliás tinha o grande defeito de não
ser colocado em esquadro com a igreja, mas não era só - por uma economia
absurda estava sendo construído com barro e pedras; as águas já o estragaram
muito e, em breve, nada mais haverá.
Tudo isso é uma prova dos inconvenientes do poder absoluto atribuído
até agora aos capitães-generais. Sem nenhum obstáculo podem seguir todas
suas idéias, executar todos os seus planos, por esdrúxulos que sejam,
e seus subalternos nunca deixam de se extasiar diante do que eles fazem.
Mas, quando um general deixa sua capitania, procuram vingar seu despotismo,
depreciando todas suas obras; seu sucessor abandona-as, e começa outras,
que por sinal serão um dia esquecidas.
Ao pôr do sol, à altura dos Três Irmãos, 21 de junho. - O Brasil
é um imenso país, cujas províncias diferem singularmente entre si pelo
clima, pela natureza do solo e pelas produções, e essas diferenças têm
naturalmente originado outras, não menos sensíveis, nos costumes das
populações. Enquanto o Soberano estava na Europa podia adotar a política
do sistema colonial, de favorecer o isolamento das províncias, meio
fácil de oprimi-las e impedir que se reunam contra a metrópole. Mas,
depois que veio a se estabelecer no Brasil, seus interesses adaptavam-se
melhor aos do seu povo, receava, portanto, mais separações parciais
do que um levante geral, e era evidente dever de cuidar de estabelecer
ligações entre seus súditos, tratando de criar entre eles um espírito
público, imaginando um sistema de administração que se ligasse a um
centro comum. Mas os ministros do rei não são capazes de tão altos pontos
de vista.
Era impossível continuar a considerar como colônia um país onde o Soberano
tinha sua residência. Declararam-no, então, igual às províncias européias
e abriram seus portos a todas as nações. Mas pararam aí, e por singular
contradição deixaram uma administração colonial em um país que não era
mais colônia. Cada capitania ficou sendo uma espécie de "pachalik" (N.T.
Pachalik é um território governado por um pachá) onde o capitão-general
continuava a gozar de um poder absoluto e onde podia, a seu talante,
reunir em si todos os poderes.
São dez horas; a noite está excessivamente escura; ao longe riscam
relâmpagos e o vento ameaça girar para o sul; o patrão achou prudente
lançar a âncora.
Já tive ocasião de observar que, nesta região, se empregam, em vários
místeres, os diversos produtos do gado. Devo acrescentar que nos barcos,
navegando entre Porto Alegre e Rio Grande, usam cordames de couro, os
quais têm o inconveniente de esticar muito quando molhados.
Abro ao acaso minha Bíblia inglesa e deparo com estas palavras do salmo
XXIX: "The voice of the Lord is upon the waters; the god of glory thundereth:
the Lord is upon many waters. The voice of the Lord is powerful; the
voice of the Lord is full of majesty."
Esses versículos, parecendo feitos para a situação em que me encontro,
enchem-me de uma espécie de terror religioso; entretanto continuei a
leitura do salmo, reanimando-me com o último versículo: "The Lord will
give strength unto his people with peace." A lembrança de minha mãe
apresentou-se em meu espírito e senti-me enternecido; acredito que devo
minha integridade física às suas preces.