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Porto Alegre, Quarta-feira, 08 de setembro de 2010

23:46
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Ciudad vieja

Aconteceu na hora da sesta, nós estávamos bebendo no Café Adriático e foi aquela confusão. Porque não era nada fácil aceitar que o nosso velho bairro estava despegando do chão e exibindo seus casarões antigos para toda esta gente aborrecida e apressada que habita as torres da cidade nova.

Ali estávamos os tradicionais personagens de uma história antiga, feita de bares de esquina, cortiços e torreões misteriosos. E tudo isso estava voando numa tarde comum de outono. Teorias as mais estranhas tentavam explicar o fenômeno, mas para mim era uma coisa bem lógica: cansada de destruição e descaso, nossa cidade velha decidiu partir.

Ficamos olhando e olhando... era um espetáculo e tanto assistir a passagem do nosso querido bar y café Joselito, do Hotel Martinica, da Padaria Napolitana, do mercado de leite, todos cheios de esculturas e enfeites que já não podem mais ser feitos, porque as mãos que os fizeram, as nossas mãos, estão velhas hoje em dia.

Alguém disse que eles, os prédios voadores, tinham tomado o rumo da praia. Enquanto caminhava pela avenida Costaneira eu ia imaginando se algum dia esses prédios fast-food modernosos que tomaram conta da cidade, se algum dia eles também não levantariam vôo rumo ao mar.

Acho que não, pode ser até que partissem, mas a maneira não seria a mesma, combinam mais com um estouro "plóc", de goma de mascar, e fim. Coisa romântica de voar com varais multicoloridos é só para prédios antigos de um bairro decadente e esquecido com cor de mofo e sentimental.

À tardinha, uma multidão acompanhava o espetáculo, até porque o Estado Maior das Forças Armadas achou necessário abater os prédios voadores. Como a Aeronáutica não se julgou competente para a tarefa - posto não dispor de aviões muito menos de combustível - a Marinha se fez presente com uma nave.

Uma antiga fragata chamada Vitória, diante da multidão que se aglomerava no porto, disparou suas bocas de fogo. Por sorte, de péssima mira, para histeria dos oficiais e nossa alegria. Lá pelas tantas, um gaiato disse que de tão velha, só faltava a fragata voar também, o que, para seu susto, aconteceu.

Olhando para os prédio quase na linha do horizonte, fui tomado por uma sensação de bem-estar. A noite se aproximava e uma brisa agradável vinha do mar. Foi então que percebi uma melodia distante, um tango canção que se cantava assim : Se van, se van ... las casas viejas queridas demás están ... Han terminado sus vidas ...

Llegó su motor y su roncar, ordena y hay que salir, el tiempo cruel con su buril come y hay que morir ... Se van, se van ... lavando a cuestas su cruz como las sombras se alejan y esfumam ante la luz? Donde están las palabras de amor? Como todo, pasarón, igual que estas ...

Que no han de volver ... Se van ... se van ... fechei meus olhos e continuei com uma sensação agradável, uma sensação de paz. Respirei com vontade e instintivamente ergui primeiro uma, depois a outra perna ...


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