 Aconteceu na hora da sesta, nós estávamos bebendo no Café Adriático e foi aquela confusão. Porque não era nada fácil aceitar que o nosso velho bairro estava despegando do chão e exibindo seus casarões antigos para toda esta gente aborrecida e apressada que habita as torres da cidade nova. |  |  Ali estávamos os tradicionais personagens de uma história antiga, feita de bares de esquina, cortiços e torreões misteriosos. E tudo isso estava voando numa tarde comum de outono. Teorias as mais estranhas tentavam explicar o fenômeno, mas para mim era uma coisa bem lógica: cansada de destruição e descaso, nossa cidade velha decidiu partir. |  Ficamos olhando e olhando... era um espetáculo e tanto assistir a passagem do nosso querido bar y café Joselito, do Hotel Martinica, da Padaria Napolitana, do mercado de leite, todos cheios de esculturas e enfeites que já não podem mais ser feitos, porque as mãos que os fizeram, as nossas mãos, estão velhas hoje em dia. |  |  Alguém disse que eles, os prédios voadores, tinham tomado o rumo da praia. Enquanto caminhava pela avenida Costaneira eu ia imaginando se algum dia esses prédios fast-food modernosos que tomaram conta da cidade, se algum dia eles também não levantariam vôo rumo ao mar. |  Acho que não, pode ser até que partissem, mas a maneira não seria a mesma, combinam mais com um estouro "plóc", de goma de mascar, e fim. Coisa romântica de voar com varais multicoloridos é só para prédios antigos de um bairro decadente e esquecido com cor de mofo e sentimental. |  À tardinha, uma multidão acompanhava o espetáculo, até porque o Estado Maior das Forças Armadas achou necessário abater os prédios voadores. Como a Aeronáutica não se julgou competente para a tarefa - posto não dispor de aviões muito menos de combustível - a Marinha se fez presente com uma nave. |  |  Uma antiga fragata chamada Vitória, diante da multidão que se aglomerava no porto, disparou suas bocas de fogo. Por sorte, de péssima mira, para histeria dos oficiais e nossa alegria. Lá pelas tantas, um gaiato disse que de tão velha, só faltava a fragata voar também, o que, para seu susto, aconteceu. |  |  Olhando para os prédio quase na linha do horizonte, fui tomado por uma sensação de bem-estar. A noite se aproximava e uma brisa agradável vinha do mar. Foi então que percebi uma melodia distante, um tango canção que se cantava assim : Se van, se van ... las casas viejas queridas demás están ... Han terminado sus vidas ... |  Llegó su motor y su roncar, ordena y hay que salir, el tiempo cruel con su buril come y hay que morir ... Se van, se van ... lavando a cuestas su cruz como las sombras se alejan y esfumam ante la luz? Donde están las palabras de amor? Como todo, pasarón, igual que estas ... |  Que no han de volver ... Se van ... se van ... fechei meus olhos e continuei com uma sensação agradável, uma sensação de paz. Respirei com vontade e instintivamente ergui primeiro uma, depois a outra perna ... |